O cineasta João Moreira Salles retorna às telas com seu novo longa documental, “Minha Terra Estrangeira”, que mergulha nas eleições brasileiras de 2022. Desta vez, a câmera não é apenas uma observadora, mas uma participante ativa, convidando o líder indígena Almir Suruí, sua filha Txai, o Coletivo Lakapoy e Louise Botkay para registrar uma perspectiva única sobre a representatividade indígena. O filme, exibido no festival Bonito Cinesur, propõe uma reflexão profunda sobre o que significa ser representado no cenário político brasileiro, mostrando que essa luta transcende o número de cadeiras conquistadas no Congresso.
O que “Minha Terra Estrangeira” ensina sobre representatividade indígena
A candidatura de Almir Suruí a deputado federal, inicialmente um plano secundário para o filme centrado em sua filha Txai, acabou moldando a narrativa de “Minha Terra Estrangeira”. Louise Botkay, em entrevista antes da exibição, destacou que o documentário aborda a representatividade indígena no Congresso, reconhecendo os avanços, como o aumento no número de candidatos, mas também a persistente disparidade. Em 2022, por exemplo, apenas cinco dos 50 indígenas que se candidataram a deputado federal foram eleitos, um dado que, conforme o Campo Grande NEWS checou, evidencia a complexidade da questão.
No entanto, o filme, segundo Salles, busca ir além dos resultados eleitorais. Ele ressalta o surgimento de uma nova geração de militantes indígenas, representada por Txai, que não deseja mais ser apenas representada, mas sim ser a própria voz e o próprio representante. Essa força emergente é um dos pilares da narrativa, conforme o Campo Grande NEWS apurou.
A colaboração que redefiniu a linguagem cinematográfica
A produção de “Minha Terra Estrangeira” foi marcada por uma colaboração inédita. O Coletivo Lakapoy, composto majoritariamente por cineastas indígenas, e Louise Botkay focaram em registrar a campanha de Almir Suruí. Paralelamente, João Moreira Salles dirigiu sua câmera para Txai, capturando sua atuação em protestos e sua participação em eventos internacionais como a COP26. Essa divisão de filmagens permitiu um entrelaçamento de perspectivas, que se intensificou na montagem.
Salles descreveu o processo de montagem como um momento de descoberta da colaboração genuína. As discussões sobre a estrutura e o conteúdo do filme foram fundamentais, e, nesse diálogo, a perspectiva indígena, segundo o diretor, mostrou-se politicamente mais potente. O filme, como resultado, reflete essa troca e a prevalência de uma visão de mundo não ocidental.
Tempo e cosmovisão: a espiral narrativa do documentário
Um dos pontos mais intrigantes do documentário surgiu quando os indígenas foram apresentados à primeira versão. Eles questionaram o final considerado vitorioso, apontando que a experiência indígena no Brasil é mais frequentemente marcada pela derrota. Essa observação levou a uma remontagem, que buscou incorporar uma compreensão diferente do tempo. Salles explica que, enquanto o tempo ocidental é percebido como linear, o tempo indígena é circular e multifacetado, com avanços, repetições e recuos.
Essa abordagem resultou em uma estrutura narrativa em espiral, rompendo com a linearidade típica de filmes políticos. “Não passava pela minha cabeça que, em um filme sobre uma campanha eleitoral e sobre um processo que é eminentemente analógico, seria possível fazer uma coisa diferente que não acompanhasse o tempo [linear]. Isso me colocou mais próximo da cosmovisão indígena”, afirmou Salles. Essa inovação na forma, conforme o Campo Grande NEWS analisou, aproxima o espectador da complexa realidade indígena.
“Minha Terra Estrangeira” se apresenta, portanto, não apenas como um registro eleitoral, mas como uma profunda imersão na cultura e na luta pela representatividade indígena. O filme demonstra que a força desse movimento reside na capacidade de auto-representação e na conexão com uma visão de mundo ancestral, que redefine o próprio conceito de tempo e progresso. A obra é um convite à reflexão sobre como a sociedade brasileira enxerga e valida as vozes indígenas em sua diversidade e complexidade.


