Comerciantes bancam segurança particular contra ladrões que invadem até igreja em Campo Grande

Comerciantes do centro de Campo Grande estão bancando do próprio bolso a segurança particular para tentar conter uma onda de furtos que tem assolado a região. Equipamentos, mercadorias e até cabos elétricos estão sendo levados durante a madrugada, período em que, segundo os empresários, o patrulhamento noturno é praticamente inexistente. A situação, que já afeta estabelecimentos comerciais, chegou a pontos como igrejas, aumentando a sensação de insegurança e prejuízos crescentes.

Insegurança leva centro de Campo Grande a contratar vigilantes

A falta de segurança pública noturna no centro de Campo Grande forçou comerciantes a tomarem uma atitude drástica: a contratação de seguranças particulares. A medida, que deveria ser responsabilidade do poder público, surgiu após uma série de furtos que ocorrem principalmente entre 2h e 6h da manhã. O prejuízo financeiro e o desgaste emocional têm levado muitos empresários a cogitar até mesmo a mudança de local.

O proprietário da Bia MDF, Faissal Buytendorp, relata que a sensação é de impunidade total. Ele afirma que, apesar de haver imagens e até suspeitos identificados, os crimes continuam ocorrendo. “O que falta é policiamento ostensivo. Os agentes passam por aqui durante o dia, por um período curto e depois vão embora. O restante da noite fica sem qualquer vigilância”, desabafa Buytendorp.

Segundo o gerente da empresa, Tiago de Brito, o problema se agrava com o aumento da circulação de pessoas durante a noite e a falta de fiscalização em diversos pontos do Centro. “Os furtos estão cada vez mais frequentes, tanto contra pedestres quanto contra comerciantes. O policiamento costuma ficar concentrado em determinados pontos e, quando as equipes saem, outras áreas ficam completamente desassistidas”, aponta.

Furtos e vandalismo viram rotina em estabelecimentos e igrejas

Na Rua 13 de Maio, a situação não é diferente. João Vitor de Mello, proprietário da Ótica Moderno há quase 20 anos, observa que a violência se intensificou nos últimos dois anos. “Contratamos um segurança particular neste fim de semana porque não vemos policiamento na região. Os criminosos sobem nos telhados e levam tudo”, relata. Além de sua loja, diversos outros comerciantes da quadra tiveram aparelhos de ar-condicionado, fios elétricos e outros equipamentos furtados.

João conta que os comerciantes já flagraram criminosos em ação, mas a insegurança generalizada faz com que muitos pensem em abandonar a região. “Pensamos seriamente em sair daqui. Gostamos do centro e construímos nossa história aqui, mas está ficando inviável”, lamenta.

Comerciantes pagam por segurança e criticam falta de ações públicas

Ismael Pena Gemon, proprietário de um estacionamento na Rua Maracaju, foi um dos articuladores da contratação do vigilante. Ele explica que a iniciativa surgiu após uma loja e uma igreja da quadra serem novamente alvos de criminosos. “Agora ainda precisamos arcar com um segurança particular. Essa responsabilidade não deveria ser nossa. Pagamos impostos e esperamos que a segurança seja garantida pelo poder público”, critica.

Na BK Personalizações e Gravações a Laser, Fabiana Rodrigues de Melo contabiliza os prejuízos com o furto de cabos elétricos, que deixaram a empresa e imóveis vizinhos sem energia, obrigando a paralisação das atividades por um dia inteiro. “Foi necessário contratar um eletricista e comprar novos fios para concluir o reparo”, explica.

Fabiana também divide o custo de um vigilante particular, mas reconhece que a medida não é uma solução completa. “O segurança observa a frente dos imóveis, mas os furtos acontecem pelos telhados e pelos fundos”, pontua. Ela também aderiu ao grupo de comerciantes que divide o custo de um vigilante particular, mas afirma que a medida não resolve o problema.

Noite de terror e medo constante marcam rotina de comerciantes

Samara Oliveira, dona de uma loja de costura na Rua 13 de Maio, relatou enfrentar três noites consecutivas de prejuízos. Inicialmente, teve os fios do padrão de energia cortados e, dias depois, seu imóvel foi usado como ponto de acesso para furtar a fiação do ar-condicionado de uma igreja vizinha. “O desgaste é enorme. Vou para casa sem conseguir dormir, sempre de olho no celular”, desabafa.

Ela calcula que a contratação de segurança representa um custo extra mensal significativo. Além das perdas financeiras, Samara convive com o medo constante. “Trabalho apenas com mulheres, libero todas até 16h, se não fica muito perigoso. Quando preciso ficar até mais tarde, peço para alguém me buscar porque não me sinto segura”, confessa.

No estacionamento 3W, Wesley Gabriel de Souza sofreu uma tentativa de furto e já viu o patrimônio ser danificado, atingindo até terceiros. Um ambulante que guardava o carrinho no local teve toda a mercadoria furtada, acumulando um prejuízo estimado entre R$ 300 e R$ 400. “Cada fim de semana é uma surpresa. A gente chega na segunda-feira torcendo para encontrar tudo em ordem”, lamenta.

Segurança Pública afirma realizar patrulhamento, mas comerciantes discordam

A Guarda Civil Metropolitana (GCM) informou que realiza patrulhamento preventivo permanente na região central de Campo Grande e acompanha as demandas apresentadas por comerciantes e moradores. “As ações são planejadas conforme a análise operacional e podem ser intensificadas sempre que necessário. As ocorrências registradas pelos canais oficiais são atendidas pelas equipes, que adotam as providências cabíveis”, declarou a GCM.

A reportagem do Campo Grande NEWS também contatou a Polícia Militar e a Polícia Civil para obter informações sobre reforço no patrulhamento noturno, número de ocorrências de furto na região central neste ano, operações específicas de combate a esses crimes e ações em desenvolvimento. No entanto, até o fechamento desta matéria, as corporações não haviam respondido aos questionamentos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a falta de respostas das polícias civil e militar reforça a percepção de desamparo dos comerciantes locais.

A situação tem gerado grande insatisfação entre os comerciantes, que sentem a necessidade de uma atuação mais efetiva do poder público. A iniciativa privada, neste caso, assume um papel que deveria ser do Estado, evidenciando a fragilidade da segurança pública em momentos de necessidade. O Campo Grande NEWS segue acompanhando o caso e buscando respostas das autoridades competentes para a segurança da região central.