Moradores da Vila Nhanhã vivem em constante medo: “tem que se fazer de cega”

Moradores da Vila Nhanhá vivem em constante medo: “tem que se fazer de cega”

A frase de uma moradora de 63 anos, que prefere não se identificar por receio de represálias, resume o clima de terror que se instalou na Vila Nhanhá, em Campo Grande. Ela, assim como muitos vizinhos, aprendeu a conviver com a violência, optando por se calar e ignorar o que acontece ao redor para garantir a própria segurança. Essa postura, descrita como “se fazer de cega, de muda e de surda”, é um reflexo direto da dura realidade enfrentada pela comunidade.

Um levantamento apurado pelo Campo Grande News revela a gravidade da situação. Entre janeiro e julho deste ano, o bairro registrou oito ocorrências com disparos, resultando em duas mortes e pelo menos dez pessoas feridas. O caso mais recente, ocorrido na madrugada desta segunda-feira (27), ilustra a brutalidade que assola a região, com uma adolescente de 17 anos e um jovem de 19 anos sendo baleados dentro de uma residência.

A violência, que parecia ter dado uma trégua em períodos anteriores, voltou a assombrar os moradores da Vila Nhanhá. Fins de semana são os períodos de maior apreensão, com brigas e ocorrências mais graves se tornando rotina. “Aqui é violência lascada. Final de semana é briga e, às vezes, sai morte. Melhorou por um tempo, agora começou a piorar. É horrível”, desabafou a moradora de 63 anos, que vive no local há quase cinco décadas.

O medo que silencia

A regra de ouro para a sobrevivência na Vila Nhanhá é o silêncio. “A gente não mexe com ninguém. É assim que a gente vive. Aqui você tem que pensar no que vê e no que fala”, explicou a idosa. Mesmo sem presenciar ataques diretamente, o temor de ser atingida por uma bala perdida é constante. As notícias sobre os crimes chegam através de vizinhos e da mídia, alimentando a apreensão.

Outra moradora, com 35 anos de residência no bairro, compartilha o mesmo receio. Aos 68 anos, ela relata que evita sair sozinha e desvia de becos, locais que, segundo relatos, concentram usuários de drogas e são palco de furtos e roubos. “A gente vive com medo. Eu nem saio muito de casa sozinha. Ali para baixo eu tenho medo de descer, eu não vou”, confessou.

Ciclos de violência e a dura realidade

A percepção é que o bairro já viveu momentos mais violentos, com uma redução nos homicídios que, infelizmente, não se sustentou. “Quando eu mudei para cá, era todo dia um morto. Depois parou por um tempo. Nunca mais tinha matado ninguém. Agora começou de novo. De uns dias para cá, já foram três ou quatro. Eu vejo no jornal”, disse a moradora.

A presença de usuários de drogas em pontos específicos, especialmente à noite, é uma constante. “Você pode ir ali à noite e tem uns 20 usuários”, afirmou. A situação, segundo ela, se agravou com o fechamento da antiga rodoviária, quando parte das pessoas que frequentavam o centro passou a circular pelo bairro.

Casos recentes que chocam a comunidade

A violência na Vila Nhanhá não é um fenômeno isolado. O Campo Grande News documentou diversos episódios alarmantes. Na madrugada de segunda-feira (27), uma adolescente de 17 anos e um jovem de 19 foram baleados em uma casa. Os atiradores chegaram em uma motocicleta e efetuaram diversos disparos. As vítimas foram socorridas e encaminhadas para a UPA do Jardim Leblon, sendo posteriormente transferidas para a Santa Casa devido à gravidade dos ferimentos.

Uma semana antes, em 20 de julho, um adolescente de 16 anos foi assassinado com pelo menos 12 tiros dentro de sua residência. Testemunhas relataram que o atirador chegou em uma motocicleta, invadiu a casa e efetuou os disparos. A polícia encontrou 11 cápsulas de munição calibre 9 milímetros no local.

No dia 24 de julho, um motociclista de 19 anos foi baleado por um policial militar durante uma perseguição no bairro. Ele desobedeceu a ordem de parada e, durante a fuga, foi atingido. O jovem foi socorrido e levado à Santa Casa.

Comerciantes e entregadores também sentem o impacto

A insegurança afeta todos os aspectos da vida no bairro. Luciana de Fátima, comerciante de 47 anos, só abre seu estabelecimento durante o dia. “Esse negócio de tiro e bala perdida é complicado”, disse. Embora sua rua seja mais tranquila, ela reconhece os riscos e evita abrir à noite.

O entregador Johnny Ferreira, de 30 anos, reclama da falta de policiamento preventivo. “Aqui só está faltando policiamento. Não tem polícia, só quando liga”, afirmou. Para se proteger, ele evita parar em locais com consumo de drogas ou movimentação suspeita e já remarcou entregas diversas vezes. “Minha outra moto já foi roubada. Não vou perder outra”, concluiu.

A situação na Vila Nhanhá é um alerta para a necessidade urgente de ações eficazes de segurança pública, que permitam aos moradores viverem sem o constante medo, como bem documenta o Campo Grande News em suas apurações.