Os sinos das igrejas de Campo Grande ecoam pela cidade, anunciando missas e eventos religiosos, mas a forma como esse som ancestral chega aos ouvidos dos fiéis mudou drasticamente. A tradição de badalar os sinos, que remonta a tempos imemoriais, agora convive com a tecnologia, onde aplicativos e alto-falantes reproduzem o som, muitas vezes substituindo o toque manual de pesados instrumentos de cobre. Essa modernização, no entanto, não apaga o significado histórico e espiritual desses instrumentos, que continuam a marcar o tempo e a fé na Capital.
Tecnologia substitui o toque manual em sinos centenários
Em Campo Grande, a maioria dos sinos que ainda tocam nas igrejas é automatizada. Na Paróquia São Francisco de Assis, três sinos de cobre, instalados na década de 1950 e com o maior pesando mais de meia tonelada, são controlados por aplicativo. Da mesma época, quatro sinos na Paróquia São José também utilizam tecnologia moderna para seu funcionamento. Já no Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o som dos sinos, que datam de 1941, é reproduzido por alto-falantes, uma vez que os originais não badalam há anos.
Essa adaptação tecnológica visa manter viva a tradição das badaladas, que servem para avisar sobre o início das missas, lembrar os momentos de oração do dia e anunciar acontecimentos extraordinários na vida da comunidade religiosa, como a escolha de um novo papa ou a morte de um membro importante. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a tecnologia permite que esses sons tradicionais continuem a ser ouvidos, mesmo que de forma diferente da original.
Apesar da modernização, o peso e a imponência dos sinos originais ainda impressionam. Os três gigantes de cobre da Paróquia São Francisco de Assis, entre os mais antigos da cidade, exigem acesso por escada para manuseio e limpeza, devido à altura e à estrutura da torre. Os quatro sinos da Paróquia São José, com o mais pesado pesando 350 kg, também estão localizados em torres de acesso restrito, mantendo a aura de mistério e reverência.
A Paróquia Santa Luzia, por exemplo, possui um sino mais jovem, instalado há cerca de seis anos, custeado pelos próprios fiéis, que também optaram pelo sistema automático de acionamento. Essa iniciativa demonstra o engajamento da comunidade em manter a tradição sonora ativa, mesmo que com os recursos mais modernos disponíveis.
Reclamações e adaptações: o convívio entre o sino e a vizinhança
O som dos sinos, embora apreciado por muitos, nem sempre agrada a todos. Reclamações de moradores levaram algumas igrejas a ajustar os horários das badaladas. Na Paróquia São Francisco de Assis, por exemplo, a primeira badalada do dia foi adiada das 5h30 para as 6h, e as badaladas das 5h45 foram suspensas, buscando um maior conforto para os vizinhos.
O secretário da igreja, João Carlos de Assis, relatou ao Campo Grande NEWS que a maioria dos moradores não se incomoda com o som. Ele conta que muitas pessoas se sentem conectadas ao sino e chegam a ligar para a igreja quando percebem alguma alteração no sistema, preocupadas com possíveis acontecimentos sérios, como falecimento de alguém na comunidade.
A dona de casa Ângela Maria de Oliveira Costa, 51, que frequenta a Paróquia Santa Luzia, vê o som do sino como um lembrete positivo do início de mais um dia. Para ela, o toque também traz memórias afetivas de quando, ainda adolescente, era responsável por tocar o sino em outra comunidade religiosa. A dificuldade de alcançar o sino e o medo de errar o ritmo marcam suas lembranças.
O bombeiro aposentado Silvio Lucas Costa, 50, marido de Ângela Maria, compartilhou uma história ouvida em seu antigo quartel, de como os sinos das igrejas eram usados antigamente para alertar sobre incêndios na cidade, uma forma de pedir ajuda durante a colonização do Brasil. Essa narrativa ilustra o papel multifacetado que os sinos já desempenharam na comunicação e segurança das comunidades.
Nomes e significados: a identidade dos sinos
Os sinos não são apenas instrumentos sonoros, mas também carregam nomes e significados que enriquecem sua história. Na Paróquia São Francisco, os sinos são chamados de São Francisco “da Paz”, Santo Antônio “da Proteção” e Nossa Senhora Imaculada Conceição “da Graça”, homenageando figuras religiosas e conceitos importantes.
Já os sinos da Paróquia São José possuem nomes como São José (o de 350 kg), Nossa Senhora Auxiliadora (250 kg), São João Bosco (150 kg) e Papa João XXIII (75 kg), cada um com seu peso e denominação específica. Esses nomes reforçam a identidade de cada instrumento e a devoção a santos e figuras importantes da Igreja Católica.
O padre Pedro Renato Pereira da Silva ressalta que a função desses instrumentos vai além de avisar sobre eventos. Para a Igreja, os sinos são sagrados e sua função principal é ser um convite à oração e um lembrete da presença de Deus. Conforme o padre explica, o som do sino faz com que as pessoas se lembrem de rezar e da importância de Deus em suas vidas, além de saber que a igreja está em oração pela comunidade.
Os sinos mais antigos e a história sonora de Campo Grande
A história sonora de Campo Grande se inicia com a primeira capela construída pelo fundador da cidade, José Antônio Pereira, em 1877. Apesar de simples, possuía um sino improvisado de ferro batido, citado em artigos acadêmicos. Construções posteriores no mesmo local também abrigaram sinos, que foram demolidos com a estrutura do templo na década de 1970.
Outro patrimônio histórico, a capela construída por Eva Maria de Jesus, a comunidade Tia Eva, que foi reconstruída em alvenaria em 1919, possui um sino pequeno que aguarda o fim das obras de restauração para voltar a badalar. Esses registros, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, demonstram a antiguidade e a importância dos sinos na formação da identidade religiosa e cultural da Capital.
A tradição dos sinos em Campo Grande, que hoje se manifesta através de aplicativos e alto-falantes, continua a ser um elo entre o passado e o presente, conectando gerações através de seu som característico e de seu profundo significado espiritual.

