Baru: Mudanças reprodutivas alarmam, comunidades alertam

Um estudo inovador, com a participação ativa de comunidades extrativistas em Mato Grosso do Sul, revelou mudanças significativas nas fases reprodutivas do baru, árvore nativa do Cerrado. A pesquisa, que comparou dados de 2022 e 2025, indica uma maior proporção de árvores em início de floração e uma diminuição naquelas com flores abertas e frutos. As descobertas, divulgadas pela Ecoa, levantam questões sobre a sustentabilidade da espécie e o futuro da renda gerada pela castanha, crucial para muitas famílias.

Baru: sinais de alteração no ciclo reprodutivo no MS

A castanha do baru é uma fonte vital de renda para diversas comunidades extrativistas em Mato Grosso do Sul. No entanto, um estudo recente realizado pela Ecoa (Ecologia e Ação) sugere que o ciclo reprodutivo desta importante árvore nativa do Cerrado pode estar passando por alterações. A pesquisa comparou 304 observações coletadas em 2022 com 49 registros mais recentes de 2025, identificando uma mudança notável na distribuição das fases de floração e frutificação.

Os resultados indicam um aumento expressivo no número de árvores registradas em estágios iniciais de floração. Simultaneamente, observou-se uma redução na quantidade de árvores com flores completamente abertas e, principalmente, naquelas que já apresentavam frutos. Essa alteração no padrão natural levanta preocupações sobre a produção futura da castanha.

Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, os pesquisadores da Ecoa alertam que ainda é cedo para afirmar se essas mudanças são permanentes ou apenas variações pontuais. A continuidade do monitoramento é fundamental para determinar se esses resultados indicam uma tendência de longo prazo ou se são reflexos de flutuações ambientais naturais entre os períodos de coleta de dados.

Ciência Cidadã: o papel das comunidades na pesquisa

Um dos aspectos mais relevantes deste estudo é a metodologia empregada, que se baseia na ciência cidadã. Comunidades extrativistas que vivem em áreas de coleta do baru foram diretamente envolvidas na coleta de informações. Utilizando a plataforma KoboToolbox, essas famílias registraram dados essenciais em campo, como o estágio de floração e frutificação das árvores, condições climáticas e a localização exata dos baruzeiros.

Essas informações, coletadas de forma descentralizada e participativa, integram uma base de dados robusta sobre o Cerrado. Essa iniciativa, conforme o Campo Grande NEWS checou, permite um acompanhamento detalhado do ciclo de vida da espécie, construído a partir do conhecimento empírico de quem mais conhece o recurso.

A plataforma digital, denominada Mapa Interativo da Ciência Cidadã do Baru, foi desenvolvida pela Ecoa. Ela consolida dados sobre áreas de coleta da castanha, biodiversidade local, informações climáticas e características do Cerrado, oferecendo uma visão dinâmica do comportamento da espécie ao longo do tempo. A atualização mais recente envolveu seis meses de monitoramento e a colaboração de oito comunidades extrativistas.

Impacto no planejamento e rastreabilidade

Além de fornecer subsídios valiosos para pesquisas científicas, o mapa interativo tem um impacto prático direto nas comunidades. Ele auxilia no planejamento da safra e na organização da atividade extrativista, permitindo uma melhor gestão dos recursos. A ferramenta também contribui significativamente para a rastreabilidade da cadeia produtiva da castanha de baru.

Ao permitir a identificação da origem da castanha, o mapa aumenta a transparência sobre os territórios onde o manejo sustentável é praticado. Isso fortalece a confiança dos consumidores e agrega valor ao produto, destacando o compromisso com a conservação ambiental.

O projeto, que impulsionou o desenvolvimento do mapa, conta com financiamento da Danida e parcerias internacionais, como a organização dinamarquesa Forests of the World. A iniciativa também envolve o CEPPEC e a NØDDEBAZZAREN, demonstrando um esforço colaborativo para a valorização e conservação do Cerrado brasileiro.

Análise dos dados: o que dizem os números?

A análise comparativa dos dados revelou mudanças estatisticamente significativas. Em 2022, 54,3% das observações indicavam árvores com botões florais. Em 2025, este percentual saltou para 74,5%. Em contrapartida, a proporção de árvores com flores abertas caiu de 6,9% para 2,1%, e a de árvores com frutos diminuiu de 29,3% para 14,9%. A quantidade de frutos já caídos no solo manteve-se relativamente estável, passando de 9,9% para 8,5%.

Esses números, conforme reportado pelo Campo Grande NEWS, sugerem que em 2025 uma fatia maior dos baruzeiros estava em fases iniciais de desenvolvimento floral, com menos exemplares atingindo a plena floração ou frutificação. Os pesquisadores ressaltam que fatores como condições climáticas, regime de chuvas, características ambientais e até mesmo as datas específicas em que os levantamentos foram realizados podem ter influenciado esses resultados.

Nathalia Ziolkowski, diretora-presidente da Ecoa e coordenadora da iniciativa, destaca a importância desses novos dados para a construção de uma série histórica sobre o comportamento do baru. “Eles ajudam a construir uma base histórica que permitirá compreender melhor as variações entre safras e suas possíveis relações com fatores ambientais e climáticos”, afirmou.

Área de ocorrência estável, mas monitoramento é chave

Apesar das alterações nas fases reprodutivas, a distribuição espacial dos baruzeiros observados permaneceu similar entre os dois períodos de estudo. As áreas com maior concentração de ocorrências continuam sendo os municípios de Anastácio, Nioaque e Dois Irmãos do Buriti. Embora tenham sido identificados registros em locais mais distantes, o núcleo principal de ocorrência da espécie demonstrou estabilidade.

A manutenção dessa área central reforça a importância estratégica dessas regiões para o monitoramento contínuo da espécie, a coleta de sementes e a implementação de ações de conservação do Cerrado. O Mapa Interativo da Ciência Cidadã do Baru continua em constante atualização, com a expectativa de novos registros que aprofundarão o conhecimento científico e apoiarão a preservação do baru.