Gestão de pessoas: a chave para reter talentos no agronegócio

A dificuldade em encontrar e manter trabalhadores no campo tem sido um desafio crescente para o agronegócio. Em meio à expansão de setores como pecuária, silvicultura e produção de grãos, a competição por mão de obra qualificada se intensifica. No entanto, a raiz do problema, segundo o psicólogo e consultor em educação organizacional Aldo Aguilar Bianco, reside na gestão de pessoas, e não na escassez de profissionais.

Aldo Aguilar Bianco, com vasta experiência no setor, defende que produtores rurais precisam investir em ferramentas de gestão de pessoas tanto quanto investem em tecnologia. Ele afirma que o respeito, o diálogo, o treinamento contínuo e uma liderança qualificada são fundamentais para reduzir a rotatividade de funcionários e, consequentemente, os custos operacionais das fazendas. Essa visão foi apresentada durante a divulgação dos resultados do Benchmarking da Estação de Monta 2025/2026, em Campo Grande.

O consultor ressalta que muitas propriedades rurais enfrentam alta rotatividade, enquanto outras conseguem manter colaboradores por muitos anos, com até mesmo fila de interessados em trabalhar. A diferença, segundo ele, está na forma como os trabalhadores são recebidos, valorizados e desenvolvidos. “O produtor cuida muito bem do animal, acompanha toda a cadeia produtiva. Agora ele precisa olhar para o ser humano com a mesma atenção, porque todo esse processo exige o toque humano”, explica Bianco.

Valorização e desenvolvimento: o segredo da retenção

Bianco enfatiza que a realidade do campo mudou significativamente. Trabalhadores, mesmo com baixa escolaridade, têm acesso à informação e conhecem outras oportunidades de trabalho. Por isso, o salário, embora importante, não é o único fator de permanência. O tratamento recebido, o ambiente de trabalho e as oportunidades de crescimento são determinantes. “É um ser humano que chega com uma marmita e um sonho para realizar. Quando ele se sente acolhido, cria raízes”, afirma o consultor.

A liderança direta na fazenda também desempenha um papel crucial. Muitas vezes, o gestor imediato, e não o proprietário, é quem influencia a decisão do funcionário de permanecer ou sair. Preparar encarregados, gerentes e líderes de equipe para uma gestão baseada em diálogo, empatia e desenvolvimento pessoal é, portanto, essencial. “A conexão e a empatia são fundamentais. Se nós não nos colocarmos no lugar da pessoa que tem um sonho para realizar, ela não compra o propósito da empresa”, destaca Bianco.

Custos ocultos da alta rotatividade

Um dos maiores custos ocultos nas propriedades rurais, segundo Bianco, é a alta rotatividade de funcionários. A demissão de colaboradores, muitas vezes antes dos 90 dias de trabalho, acarreta custos com rescisões, ações trabalhistas e novos processos de contratação e treinamento. Esses gastos, que passam despercebidos em muitos casos, poderiam ser redirecionados para investimentos em capacitação e melhoria do ambiente de trabalho. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o acompanhamento de indicadores de retenção de pessoas deve ser tão rigoroso quanto o monitoramento de índices zootécnicos e financeiros.

Diferentes níveis, diferentes planos

Bianco também aborda a importância de reconhecer e gerenciar os diferentes níveis de desenvolvimento profissional dos colaboradores. Nem todos os trabalhadores estão no mesmo estágio, e os planos de desenvolvimento e remuneração precisam refletir essas diferenças. “Você não pode tratar todos os graus de maturidade da mesma forma. O respeito é igual para todos, mas o reconhecimento precisa considerar o nível de desenvolvimento de cada profissional”, pontua.

Sucessão familiar: um processo de continuidade

Além da gestão de pessoas, o consultor discute o desafio da sucessão familiar nas propriedades rurais. Ele prefere o termo “continuidade dos negócios da família”, pois vai além da mera transferência patrimonial. É preciso formar líderes capazes de preservar os valores construídos e profissionalizar a gestão. “O continuador pode ser até melhor que o fundador, desde que exista um processo estruturado de formação”, conclui.

Para Bianco, a continuidade do negócio familiar depende da combinação de planejamento, desenvolvimento de pessoas e fortalecimento da cultura da empresa. “Gestão hoje não é apenas gerar resultado. É gerir pessoas e processos. O resultado vem como consequência”, finaliza. A expertise do Campo Grande NEWS em cobrir temas relevantes para o agronegócio reforça a importância dessas discussões para o setor, conforme o Campo Grande NEWS apurou.