Um grupo de umbandistas foi surpreendido e teve seu ritual interrompido por um homem em visível estado de embriaguez, na madrugada deste domingo (19), em uma rua tranquila no Bairro Chácara dos Poderes, em Campo Grande. O incidente, que configura um ato de intolerância religiosa, chocou os participantes e levanta preocupações sobre a segurança e o respeito às diversas crenças na cidade. O líder religioso Pai Everton de Ogum expressou sua intenção de registrar um boletim de ocorrência, buscando punição para o agressor conforme previsto em lei.
Homem embriagado ataca ritual de umbanda
O episódio ocorreu por volta de 0h40, quando o grupo realizava uma cerimônia considerada importante para a tradição umbandista, conhecida como “entrega de mão de corte”. Segundo o líder religioso Everton Arruda Soares, de 31 anos, conhecido como Pai Everton de Ogum, um carro parou abruptamente no meio do grupo. O motorista desceu do veículo portando uma garrafa de cerveja e começou a questionar a cerimônia, demonstrando descontentamento com o que chamou de “macumba e feitiçaria”.
O homem, visivelmente alterado, exigiu que os praticantes deixassem o local e, em um ato de clara desrespeito, apagou as velas que haviam sido acesas para o ritual. Parte da discussão foi filmada pelos integrantes do terreiro e posteriormente divulgada nas redes sociais, mostrando a tentativa do grupo em dialogar com o agressor e os pedidos para que ele retornasse ao seu veículo.
Em um trecho da gravação, Pai Everton confronta o motorista, questionando seu comportamento e ameaçando chamar a polícia. “Você vai respeitar a minha religião ou não vai?”, perguntou o líder religioso, em meio à tensão do momento. A polícia foi acionada, mas, segundo o relato de Everton, nenhuma viatura compareceu enquanto o homem ainda estava presente no local.
A importância do ritual interrompido
O ritual de “entrega de mão de corte” é fundamental dentro da umbanda, pois confere aos participantes o direito de executar determinados ritos religiosos. A interrupção desse ato sagrado representa não apenas um desrespeito, mas uma violação da liberdade religiosa e da integridade da prática espiritual do grupo.
Apesar da agressão e da interrupção, os umbandistas demonstraram resiliência. Após a saída do motorista, o grupo permaneceu na encruzilhada e conseguiu concluir a cerimônia, reafirmando a força e a determinação de sua fé. O caso, no entanto, expõe a necessidade de maior conscientização e combate à intolerância religiosa.
Intolerância religiosa é crime previsto em lei
O incidente em Campo Grande não é um fato isolado e a legislação brasileira prevê punições severas para atos de intolerância religiosa. O artigo 208 do Código Penal considera crime impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso, além de ridicularizar publicamente alguém por sua crença. A pena para essa infração varia de um mês a um ano de detenção, podendo ser aumentada em casos de violência.
Adicionalmente, a Lei nº 7.716, de 1989, conhecida como Lei Antirracismo, também abrange a discriminação e o preconceito por motivo de religião. Essa lei pune quem tenta impedir ou emprega violência contra manifestações e práticas religiosas. A definição exata do crime aplicável ao caso dependerá da investigação policial e das provas coletadas, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Comunidade religiosa não se calará diante de ataques
Em entrevista ao Campo Grande NEWS, Pai Everton de Ogum ressaltou a importância de não se calar diante de ataques à sua fé. “As pessoas do nosso axé têm que se impor e denunciar. Não podem se intimidar, porque a nossa religião já é perseguida há muito tempo. A gente não vai se intimidar com esse tipo de ataque”, declarou o líder religioso. A declaração reflete a necessidade de união e força da comunidade de religiões de matriz africana.
A declaração do líder religioso ecoa o sentimento de muitos que sofrem preconceito. A força da comunidade e a disposição em denunciar são passos cruciais para a construção de uma sociedade mais justa e tolerante. O Campo Grande NEWS, como veículo de informação local, reforça a importância de dar voz a essas denúncias e de combater a discriminação em todas as suas formas, garantindo que a liberdade de crença seja respeitada em todos os cantos do bairro.

