Moradores e comerciantes do entorno da antiga rodoviária de Campo Grande vivem um clima de apreensão constante. Relatos apontam para uma rotina marcada por furtos, roubos e violência, mesmo com a presença de forças de segurança e ações de assistência social. A sensação de insegurança, segundo eles, permanece como um fantasma que assombra o cotidiano da região central da cidade.
O problema se intensifica com a presença de pessoas em situação de rua, usuários de drogas, invasões de imóveis e o tráfico de entorpecentes. Estes fatores contribuem para um ambiente de medo, que já levou alguns a mudarem suas rotinas, como a diarista Odila de Almeida, que deixou de trabalhar na área por receio da violência. “Essa região é muito perigosa”, desabafa, explicando que antes das 6h30 já não se sente segura para circular.
A paisagem da região também mudou. Imóveis vazios, calçadas ocupadas e o aumento de furtos e roubos transformaram o cenário nos últimos anos. O aposentado João Tomicha, morador antigo, relata que as brigas são frequentes e o medo de ser pego no fogo cruzado é constante. “Tem que tomar muito cuidado”, alerta.
A antiga rodoviária e o declínio da segurança
Carlos Iracy Coelho Netto, guia de turismo que reside no bairro há mais de 40 anos, testemunhou a transformação. Ele relembra um tempo em que a região era segura para crianças brincarem livremente nas calçadas. A mudança, segundo ele, começou após a desativação da antiga rodoviária. “Foi caindo o movimento. Não tinha quase nada ali na antiga rodoviária. O abandono traz o morador em situação de rua, as coisas vão ficando complicada”, analisa.
A família de Carlos investiu pesado em segurança nos últimos 15 anos, instalando muros altos, grades, cerca elétrica, câmeras, alarme e monitoramento para tentar garantir a tranquilidade em seu imóvel. O prédio da antiga rodoviária, que está em obras há quatro anos, é apontado por muitos como um dos fatores que agravaram a insegurança na área.
Violência e iniciativas de segurança na região
A violência na região não é um mito. No início de junho de 2026, uma briga deixou cinco pessoas feridas, três em estado grave. Segundo a polícia, as vítimas foram agredidas com pedaços de madeira e pedras ao tentarem recuperar celulares roubados. Furtos, invasões de imóveis e o tráfico de drogas continuam sendo queixas recorrentes entre moradores e comerciantes, conforme o Campo Grande NEWS checou.
Em setembro de 2023, uma base móvel da Guarda Civil Metropolitana com monitoramento 24 horas foi instalada na antiga rodoviária, mas funcionou por um período e foi desativada. Além das ações policiais, órgãos públicos têm buscado lidar com a população em situação de rua. A Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul ofereceu atendimentos jurídicos, enquanto equipes de assistência social realizaram abordagens, acolhimento e encaminhamento para serviços públicos e oportunidades de trabalho. Contudo, a Secretaria Municipal de Assistência Social ressalta que as pessoas abordadas têm o direito de aceitar ou recusar o acolhimento, conforme a legislação.
Números oficiais versus percepção de insegurança
Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) indicam uma redução nos crimes na região central entre janeiro e março de 2026, comparado ao mesmo período de 2023. Os roubos em via pública caíram 65,48%, roubos de veículos 55,56%, furtos 22,48% e homicídios dolosos 75%. Apesar desses números, a percepção de insegurança entre os moradores permanece alta.
A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) afirma que realiza patrulhamento preventivo diário na região com equipes do 1º Batalhão de Polícia Militar e unidades especializadas. O policiamento é planejado com base nos registros de ocorrências e pode ser reforçado conforme a demanda. A PM incentiva o registro de boletins de ocorrência por parte das vítimas, para auxiliar no direcionamento das ações policiais. Denúncias podem ser feitas pelos telefones 190 e 181. A Guarda Civil Metropolitana não concedeu entrevista. A Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos informou que o atendimento à população em situação de rua é responsabilidade do município, com o Estado atuando em repasses financeiros, apoio técnico e articulação entre órgãos públicos, como apurado pelo Campo Grande NEWS.
Apesar dos esforços e da queda nos índices oficiais, a realidade vivida pelos moradores e comerciantes do entorno da antiga rodoviária de Campo Grande, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, ainda é de constante alerta e apreensão, demonstrando que a sensação de segurança é um desafio complexo que vai além dos números.

