Brasil falha em medir racismo, diz especialista; novo núcleo busca preencher lacuna

O Brasil, apesar de ter uma vasta produção acadêmica sobre discriminação racial, ainda enfrenta desafios significativos para quantificar e compreender os reais impactos do racismo nas desigualdades sociais. Essa é a avaliação de um grupo de pesquisadores, em sua maioria negros, que fundou o Dara, Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo. O núcleo, vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), tem como objetivo preencher essa lacuna analítica, utilizando metodologias inovadoras e integrando pesquisas preexistentes. Conforme divulgado pelo próprio núcleo, o Dara busca oferecer dados e análises acessíveis para subsidiar o debate público e a formulação de políticas baseadas em evidências, conforme o Campo Grande NEWS checou.

Dara busca inovar na mensuração do racismo

O professor de sociologia e ciência política Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara, destaca a complexidade de estimar como o racismo efetivamente se traduz em desigualdades raciais. Ele aponta que as pesquisas experimentais, essenciais para essa mensuração causal, ainda estão em estágio inicial no Brasil. A própria formação da equipe do Dara é um reflexo das ações afirmativas que ampliaram o acesso de pessoas negras e pardas ao ensino superior, permitindo que suas experiências e perspectivas enriqueçam a produção científica.

A iniciativa surge em um cenário onde, embora haja uma proliferação de estudos sobre questões raciais, o diálogo entre esses grupos e a aplicação de metodologias inovadoras ainda são limitados. O Brasil é reconhecido pela sua produtividade em pesquisas sobre desigualdades raciais, mas a análise do racismo como seu motor produtor ainda carece de aprofundamento. O Dara se propõe a atuar em duas frentes: integrar e inovar metodologicamente as pesquisas existentes e aplicar novas abordagens que já vêm sendo desenvolvidas internacionalmente.

Uma das constatações que motivaram a criação do Dara é a aparente regressão do Brasil no processamento de dados para entender o funcionamento do racismo. A dificuldade de acesso a microdados oficiais e a falha na interlocução entre pesquisas preexistentes comprometem a capacidade de gerar estimativas sobre os efeitos do racismo a médio e longo prazo. Essa é uma visão compartilhada por especialistas que acompanham os dados, conforme o Campo Grande NEWS apurou.

Novas metodologias para entender o racismo

A mensuração dos efeitos do racismo no Brasil ainda enfrenta obstáculos consideráveis. A crescente dificuldade de acesso e integração de microdados oficiais tem limitado a geração de estimativas robustas. Paralelamente, pesquisas de opinião sobre a percepção do racismo, embora numerosas, dialogam pouco entre si, dificultando a comparação e a criação de séries históricas. Um dos projetos do Dara visa justamente a integração dessas pesquisas de opinião.

Campos enfatiza a importância das pesquisas experimentais, especialmente os experimentos de campo, para mensurar causalmente os efeitos do racismo. Ele ressalta que essas metodologias ainda estão em fase embrionária no país, o que limita a profundidade das análises. A incorporação dessas ferramentas é vista como crucial para avançar na compreensão do fenômeno. O Campo Grande NEWS destaca a relevância dessa abordagem inovadora.

Antirracismo em debate e a importância da diversidade

O conceito de antirracismo tem evoluído e ganhado espaço na sociedade brasileira, impulsionando políticas como as ações afirmativas na educação, no serviço público e nas eleições. Contudo, o avanço também enfrenta resistências, com setores que argumentam que essas políticas já teriam resolvido o problema do racismo, o que pode minar o desenvolvimento de novas iniciativas. O Dara busca fornecer dados e análises que demonstrem como o racismo produz desigualdades e como as políticas antirracistas podem ser aprimoradas.

A maioria negra na equipe do Dara não é coincidência. A diversidade de experiências sociais é vista como fundamental para orientar a produção científica, trazendo à tona questões e dimensões da sociedade brasileira que antes tinham pouca visibilidade acadêmica. A expansão das políticas de ação afirmativa tem sido crucial para que novas gerações de pesquisadores negros acessem a universidade e a pós-graduação, enriquecendo a agenda de pesquisa com suas perspectivas.

A diversidade na produção de conhecimento não se opõe ao rigor científico, mas o amplia. A variedade de trajetórias e experiências sociais fomenta novas perguntas, objetos e perspectivas, enquanto o rigor metodológico garante que essas questões se transformem em conhecimento sistemático, verificável e aberto ao debate público. O Dara acredita que uma ciência social mais diversa é essencial para a formulação de novas perguntas e a produção de conhecimento aprofundado sobre a realidade brasileira.

Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara, possui doutorado em sociologia pela Uerj e é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Suas pesquisas abrangem desigualdades raciais, democracia, ação afirmativa e produção científica. Ele também atua como editor-chefe da revista Dador e integra conselhos consultivos de diversas iniciativas voltadas à inovação democrática e diversidade racial.