Ed Carlo Britto Burgatt, servidor público com 25 anos de carreira e que recebia até R$ 44,1 mil, foi detido pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) na última terça-feira (7). Ele é suspeito de integrar um esquema de corrupção que desviou R$ 27 milhões do sistema de saúde de Mato Grosso do Sul. A prisão ocorreu em meio à Operação Gutenberg, que investiga fraudes na área.
Burgatt coordenava o Core (Complexo Regulador Estadual), sistema responsável por gerenciar as filas e o acesso a exames, cirurgias e leitos no SUS (Sistema Único de Saúde) no estado. Segundo as investigações, o sistema teria sido utilizado para condicionar a realização de procedimentos médicos à compra de livros por parte dos pacientes.
A filha de Ed Carlo, Jessyca Duarte Burgatt, também foi presa na operação. Ela faz parte do quadro societário de uma operadora de planos de saúde. O governo de Mato Grosso do Sul afastou os servidores envolvidos e instaurou uma auditoria interna para apurar os fatos.
A Operação Gutenberg foi deflagrada poucos dias antes de Ed Carlo entrar em férias, previstas para o período de 29 de julho a 7 de agosto. O servidor, que é concursado como auditor de serviços de saúde, teve sua remuneração revelada, sendo superior à do governador Eduardo Riedel. Antes de coordenar a regulação, ele já atuou como gestor de serviços de saúde.
Investigação aponta desvio milionário e uso indevido do Core
O Gaeco passou duas horas no Complexo Regulador Estadual, localizado na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande. O Core é o órgão da Secretaria Estadual de Saúde (SES) encarregado de organizar o fluxo de pacientes no SUS, desde solicitações em unidades básicas até a alocação em leitos hospitalares, exames e consultas especializadas, priorizando a urgência e a disponibilidade da rede.
No entanto, conforme o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o Core também teria sido um instrumento para o esquema criminoso que movimentou R$ 27 milhões. A nota divulgada pelo MPMS detalha que o esquema se valia da influência de servidores públicos na área da saúde.
“Constatou-se, dentre as várias frentes de atuação, que o esquema criminoso se valia da influência de servidores cooptados na área da saúde pública para condicionar a autorização de exames, cirurgias e até vagas de leitos em hospitais pela rede estadual à aquisição de livros vendidos pelo grupo”, informou o órgão.
Ainda fora do suposto esquema, o Core já era alvo de críticas por sua lentidão e complexidade em comparação com regulações municipais. Em abril de 2025, uma reclamação apresentada ao Ministério Público de Dourados apontou que o sistema estadual era, no mínimo, três vezes mais lento e complicado que o Sisreg (Sistema de Regulação).
O Sisreg, segundo a reclamação, apresentava maior segurança e contava com integração nacional, enquanto o Core enfrentava problemas técnicos não resolvidos pelos desenvolvedores. A migração para o Core também envolvia a inserção manual de cerca de 56 mil fichas de pacientes, um processo que demandava tempo e recursos.
Filha de servidor presa e governo estadual reage
Na mesma operação, foi presa Jessyca Duarte Burgatt, filha de Ed Carlo. Ela é sócia de uma operadora de planos de saúde com sede em Três Lagoas e outros dois proprietários. A prisão da filha levanta questionamentos sobre o envolvimento familiar no esquema.
Em nota oficial, o governo de Mato Grosso do Sul informou que apoia a operação do Gaeco, que visa apurar a atuação de uma organização criminosa voltada a crimes contra a administração pública. A gestão estadual reforçou seu compromisso com a transparência e as ações de compliance.
“A gestão estadual mantém contínuas ações de compliance e transparência, e como padrão de conduta em todos os casos sob investigação já determinou o afastamento e/ou a exoneração dos servidores envolvidos. Por meio da Secretaria de Estado de Saúde, e também da Controladoria-Geral do Estado, além de acompanhar as diligências policiais também instaurou, simultaneamente, auditoria dos procedimentos sob tutela do Executivo, com irrestrito compromisso de lisura e integridade com administração pública”, declarou o governo.
A reportagem do Campo Grande NEWS buscou contato com a defesa de Ed Carlo e Jessyca Burgatt nesta sexta-feira (10), mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação demanda rigorosa apuração para garantir a integridade do sistema de saúde pública. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando o desenrolar deste caso.

