Rufina Brites Cardoso, conhecida carinhosamente como Gaúcha, realizou um último e emocionante desejo: morrer em Campo Grande, a cidade que amava e onde construiu sua história. Após meses internada em Londrina, no Paraná, onde tratava uma fratura e recebeu a suspeita de câncer, Dona Rufina expressou à filha o desejo de retornar para casa, mesmo debilitada.
A jornada de volta para Campo Grande, percorrendo cerca de 1,2 mil quilômetros, não foi em busca de um novo tratamento, mas sim para rever amigos, familiares e pessoas queridas. Dona Rufina faleceu na madrugada desta quarta-feira (8), poucos dias antes de completar 73 anos. A fisioterapeuta Renata Maria Cardoso de Mello, filha de Dona Rufina, emocionada, contou ao Campo Grande NEWS que a mãe conseguiu reencontrar muitas pessoas antes de partir.
‘Quero morrer onde nasci’
A frase dita por Dona Rufina ecoou na família e mudou o curso dos acontecimentos. Mesmo sentindo dores intensas e dependendo de fortes analgésicos a cada quatro horas, ela insistiu em voltar para Campo Grande. O objetivo não era prolongar um tratamento, mas sim vivenciar seus últimos dias em meio às suas memórias e afetos.
“Ela amava essa cidade. Dentro do hospital ela já tinha quase morrido. Eu coloquei meu joelho no chão, orei e fomos trilhando esse caminho. Ela conseguiu rever muita gente antes de partir”, relata a filha Renata Maria Cardoso de Mello, de 37 anos, em entrevista ao Campo Grande NEWS.
Uma vida marcada pela resiliência e afeto
Para muitos em Campo Grande, especialmente nas regiões da Vila Nhanhã e Piratininga, Dona Rufina era mais conhecida como Gaúcha. Ela foi dona de um bar que por muitos anos funcionou na Rua Manoel da Costa Lima, transformando o local em um ponto de encontro popular para vizinhos, músicos e amigos. Antes de se tornar proprietária de um bar, Gaúcha foi açougueira, sendo lembrada pela família como uma das pioneiras na profissão em Mato Grosso do Sul.
O bar, mais tarde, tornou-se o palco onde ela criou seus filhos e acolheu inúmeras pessoas, construindo laços fortes na comunidade. O legado de Dona Rufina, no entanto, se estende para além do balcão de seu estabelecimento.
O maior legado: uma família de 12 filhos
A história de Dona Rufina ganhou um capítulo ainda mais tocante quando, já mãe de cinco filhos (quatro biológicos e um adotivo), uma carta mudou o destino da família. Seu marido, um peão de comitiva pantaneira, recebeu notícias de que seis filhas que ele tinha de um relacionamento anterior viviam em São Paulo em situação de extrema dificuldade, passando fome.
Renata conta que sua mãe, sem hesitar diante da situação de traição, focou no bem-estar das crianças. “Ela falou: ‘Agora a gente vai buscar essas meninas e criar’.” Assim, as seis filhas passaram a viver com a família em Campo Grande. Pouco tempo depois, nasceu Renata, a caçula, totalizando 12 filhos sob os cuidados de Dona Rufina.
“Eu tenho dois filhos e já acho difícil. Minha mãe criou doze. Ela abriu mão da própria vida para cuidar da família. Era uma mulher muito resiliente”, compartilha Renata, destacando a força e dedicação materna. Foi em homenagem à mãe que Renata decidiu cursar Fisioterapia, buscando “devolver um pouco de todo o amor que ela deu para a gente”, conforme relatado ao Campo Grande NEWS.
Despedida em Campo Grande
Amigos e conhecidos descrevem Dona Rufina como uma mulher firme, respeitada e sempre disposta a ajudar. Ela adorava contar piadas, dar gargalhadas e fazer de seu bar um lugar de acolhimento e alegria. O carinho que deixou é evidente, com amigos de diversas cidades, inclusive do Sul do país, confirmando presença em Campo Grande para a despedida.
O velório de Dona Rufina ocorre nesta quinta-feira (9), a partir das 7h, na Capela Pax Mundial, localizada na Avenida Ernesto Geisel. O sepultamento está marcado para as 14h20, no Cemitério Campo Santo. A notícia da partida de Gaúcha repercutiu na comunidade, que se une para prestar as últimas homenagens a essa figura tão querida de Campo Grande.

