Mães sem SUS em MS: Fertilidade custa até R$ 60 mil e deixa sonhadoras na fila

O sonho da maternidade se torna um caminho árduo para muitas mulheres em Mato Grosso do Sul. Sem acesso a tratamentos de reprodução assistida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no estado, a esperança se volta para clínicas privadas, cujos custos podem ultrapassar os R$ 60 mil por ciclo de fertilização in vitro (FIV). Essa realidade expõe uma profunda desigualdade no acesso à saúde reprodutiva, deixando inúmeras famílias em um limbo financeiro e emocional.

Reprodução assistida em MS: um sonho distante pelo SUS

Mila dos Santos Pereira, 39 anos, luta há duas décadas para engravidar. Sua jornada, marcada por tentativas frustradas na rede privada devido a complicações de saúde, agora se concentra na busca por atendimento público. Contudo, a espera por uma consulta ginecológica pelo SUS em Mato Grosso do Sul já se estende desde fevereiro, e mesmo após a avaliação, os procedimentos de fertilização assistida, caso aprovados, precisarão ser realizados fora do estado. A situação de Mila reflete a carência de serviços especializados em reprodução assistida na rede pública em Mato Grosso do Sul, onde os poucos ambulatórios que existiam já foram encerrados.

Até 2017, o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul oferecia uma gama de exames para investigar a infertilidade, incluindo avaliação de sêmen, hormônios femininos e possíveis obstruções nas trompas. O Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap) também contava com um ambulatório dedicado, mas a aposentadoria do médico responsável deixou a vaga sem substituição. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a ausência desses serviços no estado obriga pacientes a buscarem atendimento em outras regiões, aumentando o ônus financeiro e a complexidade do processo.

A médica Suely Rezende, referência em reprodução assistida em MS, aponta que, apesar da infertilidade ser reconhecida como um problema de saúde pública, a oferta de tratamento pelo SUS é limitada, concentrando-se majoritariamente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Dados indicam que, dos cerca de 196 centros de reprodução humana assistida no país, apenas 11 são públicos ou vinculados ao SUS, representando aproximadamente 6% do total. Essa escassez explica as longas filas observadas em centros de referência, como o Hospital Pérola Byington e o Hospital das Clínicas da USP.

O alto custo da esperança na rede privada

Para quem não pode esperar pelo SUS, a rede privada surge como alternativa, mas a um preço elevado. Uma Fertilização in Vitro (FIV) por ciclo pode variar de R$ 25 mil a R$ 45 mil, com o custo total frequentemente atingindo R$ 35 mil a R$ 50 mil, e podendo ultrapassar os R$ 60 mil quando são necessários testes genéticos. No caso de Mila, que possui uma doença hereditária que afeta o fígado e exige biópsia embrionária, o custo se eleva a aproximadamente R$ 30 mil por ciclo, sem contar os medicamentos, um valor proibitivo para a maioria.

O médico ginecologista e especialista em reprodução assistida, Orlando Monteiro, explica que a escolha pela FIV se dá por suas taxas de sucesso significativamente maiores em comparação com a inseminação artificial, além de resolver uma gama mais ampla de causas de infertilidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 8% e 15% dos casais enfrentam infertilidade ao longo da vida, o que no Brasil representa entre 4 e 8 milhões de pessoas. No entanto, apenas alguns milhares de casais conseguem acesso anual à reprodução assistida de alta complexidade pelo SUS.

Avanços tecnológicos e a busca por soluções

O especialista Orlando Monteiro destaca que situações como a de Mila, que envolvem condições genéticas, requerem uma avaliação clínica detalhada e aconselhamento genético prévio. Procedimentos como a biópsia embrionária e testes genéticos pré-implantacionais (PGTM) podem identificar embriões com maior chance de implantação e menor risco de doenças monogênicas. Essas tecnologias, contudo, somam-se ao alto custo do tratamento.

Monteiro também menciona a barriga solidária como uma opção autorizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), desde que realizada por parentes de até quarto grau, com consentimento formal e avaliação psicológica. A reprodução assistida tem se tornado uma ferramenta importante no planejamento familiar, permitindo maior controle sobre o momento da gestação e a redução de riscos genéticos. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a procura por esses tratamentos dobrou nas últimas décadas, impulsionada pelo adiamento da maternidade e pelo aumento do congelamento de óvulos como estratégia preventiva.

A busca por tratamentos de reprodução assistida, como a FIV, tem crescido exponencialmente. Segundo o médico, as taxas de sucesso variam conforme a idade da paciente e a qualidade dos embriões. Em mulheres com até 30 anos, cerca de 70% dos embriões podem ser euploides (com número correto de cromossomos), índice que cai para cerca de 30% aos 40 anos. Com a biópsia embrionária, a chance de implantação de embriões saudáveis pode chegar a 70% ou 80%, conforme o especialista. A complexidade e o custo desses procedimentos, no entanto, ainda representam uma barreira significativa para muitas famílias brasileiras, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul, onde o acesso público é limitado. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos dessa questão que afeta o direito fundamental à saúde e à formação familiar.