Operação Gutenberg desbarata esquema milionário em MS
O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) deflagrou nesta terça-feira a Operação Gutenberg, que resultou na prisão de uma cirurgiã-dentista, sua filha médica e empresária, e um ex-prefeito de Mato Grosso do Sul. A ofensiva investiga um suposto esquema que teria movimentado mais de R$ 27 milhões em contratos públicos, principalmente para a compra de livros paradidáticos, mas que também estaria atuando em fraudes na área da saúde pública.
A cirurgiã-dentista Rossana Paroschi Jafar e sua filha, a empresária e médica Olívia Paroschi Jafar, foram detidas em Campo Grande. A operação cumpriu um total de 16 mandados de prisão e 43 de busca e apreensão em diversas cidades de Mato Grosso do Sul, além de São Paulo e Goiás. Servidores públicos e o ex-prefeito de Fátima do Sul, Junior Vasconcelos, também estão entre os alvos.
Conforme o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), a suspeita é que o esquema tenha direcionado contratos públicos por meio de inexigibilidade de licitação, utilizando empresas e pessoas para ocultar a origem de recursos ilícitos. A investigação, segundo o MPMS, aponta para um montante superior a R$ 27 milhões desviados.
Esquema de livros paradidáticos e tentáculos na saúde
A Operação Gutenberg concentra suas investigações em um suposto esquema de fraudes em contratos públicos destinados à aquisição de livros paradidáticos. No entanto, as apurações do Gaeco se estendem para a área da saúde pública, onde há suspeitas de uso de influência para manipular exames, cirurgias e a disponibilidade de vagas hospitalares. O objetivo seria beneficiar ou pressionar municípios envolvidos nas irregularidades.
A cirurgiã-dentista Rossana Paroschi Jafar foi presa em um edifício na região central de Campo Grande, enquanto sua filha, Olívia Paroschi Jafar, foi detida em outro ponto da capital. Olívia é sócia-administradora da Clínica Ross, que também foi alvo de busca e apreensão. A clínica, fundada em maio de 2026, tem como atividade principal consultas médicas ambulatoriais. Olívia possui formação em medicina pela Universidade Anhanguera e, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), não possui especialidade registrada, mas divulga em suas redes sociais atuação em harmonização corporal e tecnologias, com pós-graduação em dermatologia clínica e cosmiatria.
A família Jafar também tem ligações com a Gráfica Alvorada, onde Rossana é sócia-administradora. Essa gráfica já foi citada em investigações anteriores sobre contratos de livros didáticos. Rossana já foi alvo da Polícia Federal em 2017, na 4ª fase da Operação Lama Asfáltica, denominada M áquinas de Lama, que apurava desvios em contratos do Governo de Mato Grosso do Sul.
Ex-prefeito e servidores públicos na mira da investigação
Entre os presos está Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Junior Vasconcelos, ex-prefeito de Fátima do Sul. Ele está lotado no gabinete de um deputado estadual e é escrivão de Polícia Civil cedido à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). A operação também mirou o Core (Complexo Regulador Estadual), ligado à Secretaria de Estado de Saúde (SES), responsável pela regulação de vagas, leitos e procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Ed Carlo Britto Burgatt, coordenador estadual de Regulação Assistencial da SES, também foi preso. A suspeita é que servidores com acesso privilegiado à regulação de saúde utilizassem essa influência para beneficiar ou pressionar municípios envolvidos no esquema de contratos investigado pelo Gaeco. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a atuação do Gaeco visa coibir crimes contra a administração pública.
Em Porto Murtinho, um servidor da Secretaria Municipal de Educação, Marcio de Souza, foi preso em flagrante por porte irregular de arma de fogo. Conforme levantamento do Campo Grande NEWS no portal da transparência do município, ele possui múltiplos vínculos funcionais, alguns já extintos. Atualmente, ele mantinha dois vínculos ativos, um deles como assistente administrativo em licença sem vencimentos, e outro mais recente, em cargo de gerência ligado ao controle e assessoramento de programas executivos municipais. O revólver calibre .22 apreendido com ele teria sido herdado do pai.
Outras prisões e apreensões
Em Dourados, uma dentista também foi alvo de busca e apreensão. Na residência dela, o Gaeco encontrou uma espingarda calibre 22 e munições. O material estava em posse do marido da investigada, um comerciante de 47 anos, que foi autuado em flagrante por posse ilegal de arma. O governo estadual confirmou o apoio às ações do Gaeco e informou que determinou o afastamento ou exoneração de servidores envolvidos, além de instaurar auditorias na SES e na Controladoria-Geral do Estado (CGE).
Até o momento da última atualização, as defesas dos presos não haviam se manifestado sobre as acusações. A Operação Gutenberg demonstra a complexidade das investigações do Gaeco e a amplitude de sua atuação na repressão à corrupção e ao crime organizado em Mato Grosso do Sul.

