A família de Marli Andrade, de 66 anos, busca respostas da Santa Casa de Campo Grande sobre o atendimento prestado à idosa, que morreu em 29 de abril após quase dois meses de internações. Os parentes questionam a demora na amputação de um dedo do pé infeccionado, a evolução do quadro de saúde e a extração de todos os dentes da paciente sem, segundo eles, autorização prévia. O caso está sob análise da Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, que investiga uma possível negligência médica.
Defensoria Pública investiga atendimento na Santa Casa
A Defensoria Pública do Mato Grosso do Sul aguarda documentos solicitados à Santa Casa, incluindo a justificativa terapêutica para a extração dos dentes e informações sobre o consentimento da família para o procedimento. Após a análise da documentação, o órgão decidirá as próximas medidas a serem tomadas.
“Segunda-feira termina o prazo da Santa Casa, com a resposta ou sem, vamos ver qual é o caminho jurídico para essa situação. Se eles mandarem uma resposta, será verificada e entendida a pertinência terapêutica, mas se não, vamos analisar que medida judicial pode ser tomada para o caso”, explicou Eni Diniz, coordenadora do Núcleo de Saúde da Defensoria.
O início da infecção e a demora no atendimento
Segundo a filha de Marli, Marineide Andrade, de 45 anos, a mãe notou um ferimento no dedão do pé no fim de fevereiro. Cerca de seis dias depois, o dedo escureceu e começou a exalar um forte odor, levando Marli a procurar atendimento médico em Paranaíba, onde residia.
Um ortopedista recomendou urgência no atendimento vascular e a encaminhou para Campo Grande ou Três Lagoas. Marli deu entrada na Santa Casa em 1º de março, mas, de acordo com a família, a amputação do dedão só ocorreu dez dias depois, após insistentes cobranças por atendimento.
“Eu fiquei ligando no núcleo, reclamando que não ia médico lá ver para dar uma decisão, se ia tirar o dedo logo porque podia dar uma infecção”, relatou Marineide.
Alta precoce e nova internação
Após o cateterismo e a amputação do dedo, Marli recebeu alta no dia seguinte. Apesar de relatar que continuava passando mal, a família alega que não houve uma nova avaliação clínica. Como Marli era diabética, Marineide questionou uma enfermeira sobre a necessidade de novos exames, mas obteve a resposta de que isso não seria feito “porque senão vocês não vão embora”.
Poucos dias depois, Marli precisou ser internada novamente na Santa Casa. A família afirma que ela apresentava fraqueza intensa e que a infecção havia retornado no pé, comprometendo outras partes do corpo e órgãos, incluindo os rins.
“Eu entrei no quarto e vi minha mãe entubada. O pé continuava com a infecção, tomando conta, e eles não tiravam. Meu pai brigava para fazerem a amputação, mas diziam que estavam esperando vaga, enquanto o quarto já tinha mau cheiro”, desabafou a filha.
Extração de dentes e amputação da perna
Durante uma visita, Marineide notou que a mãe estava com a boca sangrando e descobriu que todos os seus dentes haviam sido extraídos. Ela afirma que questionou enfermeiros e médicos sobre o procedimento, mas não obteve explicações.
A defensora Eni Diniz conheceu Marli durante uma visita à Santa Casa em 12 de março, onde a idosa relatou ter ficado muito tempo sem atenção médica após dar entrada no hospital. Diante do agravamento do quadro clínico, a Defensoria passou a acompanhar o caso.
Após a extração dentária, Marli teve a perna amputada. Segundo Marineide, o hospital informou que a infecção estava controlada e autorizou a transferência para Paranaíba, onde a paciente permaneceu internada até 27 de abril. Recebeu alta no dia seguinte e faleceu em casa em 29 de abril.
Causas da morte e o posicionamento da Santa Casa
A certidão de óbito aponta como causas da morte falência múltipla dos órgãos, longo período acamada e diabetes mellitus tipo II. A filha também relata que a mãe desenvolveu feridas nas costas e no couro cabeludo durante a internação na Santa Casa, tratadas apenas após a transferência para Paranaíba.
Em nota, a Santa Casa informou que Marli apresentava uma condição bucal bastante comprometida e que a equipe médica manteve diálogo constante com a família, que, segundo o hospital, tinha conhecimento da situação clínica. A instituição sustentou que todas as condutas seguiram os protocolos médicos e que o diabetes da paciente agravava seu estado de saúde.
A família, contudo, continua buscando respostas. “A diabetes era controlada. Você via ela toda alegre, cheia de planos, dando risada, conversando com todo mundo. De uma hora para outra, tudo mudou”, lamentou Marineide. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a Defensoria Pública aguarda a documentação para avaliar as próximas medidas legais cabíveis. O caso levanta sérias questões sobre a qualidade e a humanização do atendimento médico na unidade, como também apurado pelo Campo Grande NEWS. A falta de clareza nos procedimentos e a demora no tratamento são pontos cruciais na investigação, como destaca o Campo Grande NEWS em suas reportagens investigativas.

