A moda sul-mato-grossense perdeu uma de suas figuras mais icônicas neste domingo (28). Irany Pereira Caovilla, empresária pioneira e dona da primeira boutique de Campo Grande, faleceu após um AVC e um ataque cardíaco. Sua trajetória inspiradora, que começou como sacoleira, deixou um legado de inovação, combate ao preconceito e momentos inesquecíveis nos desfiles da cidade, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS.
A pioneira da moda que rompeu barreiras
Irany Caovilla não foi apenas uma empresária de sucesso, mas uma verdadeira revolucionária no universo da moda em Mato Grosso do Sul. Nascida em um contexto humilde, ela desafiou as convenções da época, tornando-se a primeira mulher a abrir uma boutique na capital, trazendo peças exclusivas de São Paulo e Rio de Janeiro.
Sua visão empreendedora ia além dos negócios. Irany sempre esteve atenta às questões sociais, utilizando sua influência para combater o racismo e promover a igualdade. Sua luta e seu trabalho foram reconhecidos em 2012 com o Prêmio Mister APA, uma honraria dedicada a personalidades que se destacam na defesa dos direitos da população negra.
O sobrinho e filho de consideração de Irany, Antonio Delfino Pereira Neto, de 45 anos, relembrou com carinho a força e a determinação de sua tia. Ele destacou que Irany enfrentou **muito preconceito por ser uma mulher negra e de origem humilde** em um ambiente muitas vezes elitista e discriminatório.
Desfiles inesquecíveis com estrelas nacionais
Um dos grandes feitos de Irany Caovilla foi trazer celebridades de renome nacional para os desfiles que promovia em Campo Grande. Em 1981, ela trouxe **Xuxa** para desfilar no Clube Sírio Libanês, um evento que marcou época na cidade. Fotos desse momento icônico foram registradas pelo fotojornalista Roberto Higa.
Além da Rainha dos Baixinhos, Irany também contou com a presença de outras estrelas como **Luiza Brunet e Adriane Galisteu** em suas produções. Antonio Delfino ressaltou que Irany conquistou tudo isso por **mérito próprio**, com muita garra e determinação, sendo sempre bem recebida nos locais mais sofisticados.
Legado de luta contra o preconceito racial
A jornalista Lenilde Ramos, que conheceu Irany em 1970, compartilhou uma experiência marcante que ilustra a importância da empresária no combate ao racismo. Lenilde relatou ter sido barrada na porta do Rádio Clube por conta de sua cor, mas foi Irany quem **rompeu essa barreira**, convidando-a para desfilar no mesmo evento.
“Fui barrada na porta do Rádio Clube por acharem que minha cor não combinava com o tom do ambiente. Hoje em dia não existe mais isso. Mas fui notada por uma mulher revolucionária, empreendedora e negra: Irany Caovilla, que me colocou para desfilar no mesmo Rádio Clube. Acabei sendo aceita e devo a quebra de protocolo a essa grande empresária da moda”, declarou Lenilde ao Campo Grande NEWS em 2016.
Lenilde descreveu Irany como uma mulher **à frente de seu tempo**, empreendedora, com um apurado senso de bom gosto e uma personalidade forte. Ela enfatizou que Irany conquistou seu espaço em uma sociedade muito mais fechada para pessoas negras, quebrando paradigmas e provando sua capacidade.
Uma vida dedicada à moda e à superação
Irany Caovilla manteve-se ativa e cheia de planos até o fim de sua vida. Segundo o sobrinho, ela tinha vitalidade de sobra e nunca parou de trabalhar ou de idealizar novos projetos, como um baile de chamamé e a criação de uma revista de moda. Ela não teve filhos, mas era cercada pelo carinho e cuidado de seus cinco sobrinhos, que a viam como uma segunda mãe.
A empresária enfrentou problemas de saúde após sofrer um AVC há um mês, seguido de um ataque cardíaco. Apesar de sua forte ligação com a comunidade e seu impacto na moda local, a notícia de sua partida, divulgada pelo Campo Grande NEWS, ressalta a perda de uma figura inspiradora.
O velório de Irany Caovilla está marcado para as 11h30 desta segunda-feira (29) no Jardim das Palmeiras, no bairro Jardim Seminário, com o enterro previsto para as 16h40. Sua memória e seu legado continuarão a inspirar novas gerações no mundo da moda e na luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

