Caminhoneiros em Campo Grande: Lei Ignorada e Perigo nas Ruas

A Lei dos Caminhoneiros, em vigor há 11 anos, prevê a criação de Pontos de Parada e Descanso (PPDs) com condições mínimas de segurança e higiene. No entanto, em Campo Grande, especialmente no Polo Industrial Oeste, a realidade é desoladora. Motoristas denunciam a ausência desses locais, forçando-os a pernoitar em meio ao mato, com medo de assaltos e sem infraestrutura adequada.

Caminhoneiros enfrentam descaso em Campo Grande

A legislação que deveria garantir dignidade e segurança aos profissionais do volante tem sido ignorada. A Lei nº 13.103/2015, conhecida como Lei dos Caminhoneiros, estabeleceu regras para a jornada de trabalho e a criação dos PPDs. Contudo, uma lacuna na lei deixou em aberto a responsabilidade pela implantação e manutenção desses espaços, gerando um vácuo que prejudica diretamente os motoristas.

Em Campo Grande, a situação é alarmante. Caminhoneiros que frequentam a cidade, especialmente a região do Polo Industrial Oeste, relatam dificuldades extremas para encontrar locais seguros e adequados para descansar ou aguardar o carregamento e descarregamento de cargas. A falta de estrutura, iluminação precária e a ausência de limpeza transformam as áreas de espera em ambientes insalubres e perigosos.

O Campo Grande News recebeu relatos de motoristas que descrevem cenas de desespero. Celso, de 61 anos, caminhoneiro de Rondônia, desabafou sobre as condições enfrentadas. “Nós motoristas queremos que o poder público, a prefeitura de Campo Grande, dê uma olhada aí no bairro, aí na base do setor industrial, aí em frente ao Tomazelli, a Seara, a Aurora, três empresas que tem aí, nós motoristas ficamos esperando para descarregar o caminhão, né? E você pode ver lá na frente da Seara, aquele mato, aquela poeira lá, não tem nem condições de nós abrirmos a caixa de comida para fazer um almoço, fazer uma janta, um café da manhã, devido ao mato que tá… agora ainda deram uma roçada lá, mas é muito ruim isso aí”, contou.

Ele também destacou a precariedade da iluminação noturna. “Iluminação à noite também, que a gente dorme na frente da empresa lá, à noite também a iluminação é precária”, completou. A falta de iluminação adequada aumenta o risco de assaltos e torna o pernoite um verdadeiro pesadelo, com a ameaça de animais peçonhentos, como cobras e aranhas, devido à vegetação alta e descuidada.

O perigo de dormir ao relento

A situação é ainda mais grave quando se trata da segurança. José Cláudio, 47 anos, com 27 anos de profissão, afirma que a falta de estrutura é um problema recorrente e que a insegurança é uma constante. “Tem que ter um espaço especial. A gente chega dos postos e não tem espaço, não tem lugar para encostar. Não tem mais nada. Você dorme na rua e, na rua, a gente fica sendo incomodado por usuários de drogas”, relatou.

Ele relembra experiências assustadoras em Campo Grande, onde pessoas se aproximavam dos caminhões, pediam comida e, em algumas ocasiões, tentavam roubar pertences, como botijões de gás. Essa falta de segurança afeta diretamente a saúde mental e física dos motoristas, que já enfrentam longas jornadas e a saudade da família.

Cícero, conhecido como Tom, 50 anos, morador de Bataguassu, amplia a crítica, afirmando que o problema da falta de pontos de parada adequados não se restringe a Campo Grande, mas é uma questão nacional. “É complicado, hoje aqui no Brasil, em canto nenhum você consegue encontrar ponto de apoio. Ninguém se preocupam em cuidar do transporte, vê o transporte como é que está, a situação que anda o transporte. Você não tem um local pra ficar seguro, pra ficar parado e pernoitar, fazer uma comida”, desabafou.

Ele critica a falta de atenção dos governantes e a precariedade das estradas brasileiras. “Muitas vezes onde você chega, em um posto de gasolina que você chega, o cara fala ‘se não abastece, você não pode ficar aqui’. Então é complicado, hoje em dia o transporte, cada dia que passa está ficando pior, porque não tem ninguém. Muita gente fala, fala, vem político, mas ‘nego’ não vem ver a realidade, ‘nego’ não corre pra ver a realidade. Nós não temos uma pista com qualidade, nós não temos uma BR que você pode andar com confiança, que dê segurança. Pra todo mundo é difícil”, concluiu.

Uma realidade que afeta todo o país

Apesar do cenário desolador em Campo Grande, Vladimir Gonçalves, 50 anos e caminhoneiro há duas décadas, considera que a situação em Mato Grosso do Sul é menos crítica em comparação com outras regiões do país. “Até que aqui no Mato Grosso do Sul não é não (muito difícil local pra parar). Até que aqui tem bastante posto. Claro que depende do horário que tu chega está lotado, aí dificulta que tem que procurar outro, mas não é ruim não”, comentou.

Joel Muzi, 44 anos, concorda que a falta de espaço é um problema generalizado. “Falta um pouquinho de estrutura, está bem apertado para encostar caminhão grande, tem pouco espaço físico para a gente poder encostar”, disse. Essa dificuldade, segundo ele, tem se tornado cada vez mais comum em todo o território nacional, evidenciando a necessidade urgente de investimentos em infraestrutura para o setor.

O Campo Grande News buscou contato com a prefeitura de Campo Grande para obter um posicionamento sobre a situação dos Pontos de Parada e Descanso na cidade. No entanto, até o fechamento desta matéria, o órgão municipal não havia respondido às solicitações. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.